Tudo que eu vou falar aqui ou se apreende ao longo do gibi (e do roteiro) ou são desdobramentos de elementos que também estão lá. Como a gente entende a história só no meio, por flashbacks, quando o Tiss conta, acho bom juntar as informações e acrescentar como é a minha visão desse mundo no qual a história está inserida. É tudo uma base, um prólogo, antes da primeira cena. Uma tentativa de entender melhor a atmosfera dessa história.
Apesar de se perceber pelas roupas e carros que existe um estilo dos anos 30 e 40, o tempo não é importante, se a história se passa no presente, futuro, ou no passado. O fato é que 68 anos antes da história começar aconteceu um golpe militar, que colocou no poder o Dr. Zar. O Dr. Zar acreditava que o melhor para a nação era apostar na modernização e na produtividade. Uma “ditadura de inspiração tecnocrática”.
Ou seja, a ditadura buscava eliminar o individuo, e tratava o coletivo como uma grande máquina. Assim sendo, o sonho era visto como um desestabilizador dessa condição. E sonho, não só como o sonho que temos quando estamos dormindo, também os “sonhos” de vida, como ter uma bela família, ou até comprar um carro novo. Na tentativa de aumentar a eficiência, gera-se essa massificação, essa uniformidade, e o sonho, como característica pessoal, e como esperança, é abolido.
Através de um tratamento científico, agora ninguém mais sonha, ou se sonha não se lembra, e se lembra, lembra só de alguns fragmentos sem importância. Todas as pessoas, não sonhando, são mais facilmente conformadas com o cumprimento única e exclusivamente do “seu papel”.
Antes de seguir, vamos imaginar como seria uma sociedade onde ninguém mais sonha. São todos como peças de uma engrenagem, concentrados apenas em desempenhar as suas atividades. Não pode ter espaço para a criatividade nem para a imaginação. É de se imaginar que o espaço para as artes tenha sido reduzido. Não imagino, por exemplo, música nessa sociedade. Quem vai compor? Quem vai tocar? No filme estou pensando em usar a música como um dos elementos de transformação. É basicamente isso. A rotina e apenas a rotina.
Tudo isso é uma visão extremada de características da nossa própria sociedade, onde os sonhos e a criatividade são desestimulados. Uma característica marcante do último século foi o aperfeiçoamento das formas de produção. Assim, gerou-se uma febre, uma busca por cartilhas e “melhor jeito de fazer”. Os Estados Unidos são os principais representantes desse jeito de pensar. É impressionante a capacidade de industrializar tudo. Quase todos (principalmente os americanos) buscam os 12 passos para cuidar de um filho, ou os 5 passos simples para construir uma cerca. Ninguém mais tenta fazer a própria cerca, imaginar como ela seria, colocar um pedaço de si mesmo. Essa massificação acontece e vem acontecendo, e é evidente que é disso que a história se trata. De ver além da industrialização e da institucionalização.
Voltando à história, existem algumas pessoas insatisfeitas com a situação estabelecida, que formaram uma resistência. Mas pelo aspecto que o autor coloca essa resistência, eles estão tão enrolados nessas engrenagens desse sistema tanto quanto qualquer outra pessoa. É como se esse fosse o papel deles, essa resistência é tão burocrática quanto a própria ditadura. Quem assistiu a continuação do Matrix (reload e revolutions), pode observar algo semelhante. O “Arquiteto” conta que simplesmente tem gente que não se adapta à situação imposta. Então ele deixa que se crie essa resistência, e quando ela toma força, ele extermina. Na nossa história um desses grupos é a Frente de Libertação Onírica e Patriótica, que parece mais interessada no poder, do que na idéia em si. O personagem que representa a FLOP é o Tiss.
Esse é o cenário. A história começa ainda antes da história. No meio disso tudo, um historiador, Slumber, “arquivista” de documentos medievais antigos, encontra um livro em branco. O livro chama a sua atenção e ele, escondido, leva para a casa. Não percebe nada de especial, além do fato de as páginas estarem em branco, até que adormece e acorda com o luar iluminando páginas escritas, contando os seus sonhos. O livro, assim, faz duas coisas: incentiva as pessoas a sonharem e registra, quando banhado pelo luar, o sonho.
Sonhando, Slumber percebe o quanto sua vida era medíocre e se sente profundamente frustrado. Aparece para ele então, a figura do Mestre. (Não fica claro se o mestre aparece só em sonhos, ou se aparece de verdade. É evidente que para o Slumber é apenas em sonho, mas na última sequência é inquestionável a presença física do Mestre.) O Mestre é alguém que sabe de tudo, sabe da existência do catálogo de sonhos (assim se chama o livro), e sabe de seu poder. O Mestre é uma dessas figuras poderosas que não vão para “o front”, um dos tipos das epopéias, alguém de imenso poder, mas que não toma um papel ativo, apenas influencia o verdadeiro herói (Gandalf, Yoda, Merlin…). O mestre explica que existem a matéria, a antimatéria e a matéria de que são feitos os sonhos. Matéria e antimatéria, em contato, se aniquilam. Mas a matéria de que são feitos os sonhos reage de maneira bem mais sutil com a matéria, mas mesmo assim é capaz de produzir conseqüências inesperadas e grandiosas.
Slumber, com o catálogo na mão, vê um jeito de tentar sair dessa vida medíocre que ele leva. Assim, entra em contato com a FLOP para tentar vender esse catálogo. Mas o mestre continua aparecendo e torturando-o, como uma consciência.
Enquanto isso as autoridades fecham o cerco em volta da FLOP, e descobrem a existência desse catálogo. Apesar de as convicções dessas autoridades impedirem-nos de acreditar nos “poderes” do catálogo, é inegável que minimamente como símbolo, ele pode ser um fator de desestabilização dessa “ordem”. Assim eles tentam recuperar o catálogo e entrar em contato com Slumber, para, quem sabe, ele entregar os membros da FLOP. Dessa forma eles decidem invadir o apartamento do Slumber.
Mas Slumber sabe da chegada deles, e coloca em prática o que aprendeu com o catálogo, trazendo à vida um personagem de seu sonho, Claudio Remo, para despistar os guardas que entravam em seu apartamento. E é aí que começa a história.
Sobre tudo isso, é interessante notar que a única pessoa capaz de produzir uma mudança na situação é o Remo. Todos, TODOS os outros personagens, estão compenetrados de seus papéis e até conformados com eles, fazendo parte de toda essa máquina. Remo é único elemento realmente subversivo, até por ser o único que está completamente incerto de seu papel, de seu propósito. E ao longo da história ele decide que vai provocar a mudança. E ele tem sucesso, como podemos ver pela última cena, o último diálogo entre os 2 agentes sobreviventes. Um deles teve um sonho, uma das pessoas mais convictas e intrincadas desse sistema começou a sonhar. A mudança já está estabelecida.
Tudo que eu vou falar aqui ou se apreende ao longo do gibi (e do roteiro) ou são desdobramentos de elementos que também estão lá. Como a gente entende a história só no meio, por flashbacks, quando o Tiss conta, acho bom juntar as informações e acrescentar como é a minha visão desse mundo no qual a história está inserida. É tudo uma base, um prólogo, antes da primeira cena. Uma tentativa de entender melhor a atmosfera dessa história.
Apesar de se perceber pelas roupas e carros que existe um estilo dos anos 30 e 40, o tempo não é importante, se a história se passa no presente, futuro, ou no passado. O fato é que 68 anos antes da história começar aconteceu um golpe militar, que colocou no poder o Dr. Zar. O Dr. Zar acreditava que o melhor para a nação era apostar na modernização e na produtividade. Uma “ditadura de inspiração tecnocrática”.
Ou seja, a ditadura buscava eliminar o individuo, e tratava o coletivo como uma grande máquina. Assim sendo, o sonho era visto como um desestabilizador dessa condição. E sonho, não só como o sonho que temos quando estamos dormindo, também os “sonhos” de vida, como ter uma bela família, ou até comprar um carro novo. Na tentativa de aumentar a eficiência, gera-se essa massificação, essa uniformidade, e o sonho, como característica pessoal, e como esperança, é abolido.
Através de um tratamento científico, agora ninguém mais sonha, ou se sonha não se lembra, e se lembra, lembra só de alguns fragmentos sem importância. Todas as pessoas, não sonhando, são mais facilmente conformadas com o cumprimento única e exclusivamente do “seu papel”.
Antes de seguir, vamos imaginar como seria uma sociedade onde ninguém mais sonha. São todos como peças de uma engrenagem, concentrados apenas em desempenhar as suas atividades. Não pode ter espaço para a criatividade nem para a imaginação. É de se imaginar que o espaço para as artes tenha sido reduzido. Não imagino, por exemplo, música nessa sociedade. Quem vai compor? Quem vai tocar? No filme estou pensando em usar a música como um dos elementos de transformação. É basicamente isso. A rotina e apenas a rotina.
Tudo isso é uma visão extremada de características da nossa própria sociedade, onde os sonhos e a criatividade são desestimulados. Uma característica marcante do último século foi o aperfeiçoamento das formas de produção. Assim, gerou-se uma febre, uma busca por cartilhas e “melhor jeito de fazer”. Os Estados Unidos são os principais representantes desse jeito de pensar. É impressionante a capacidade de industrializar tudo. Quase todos (principalmente os americanos) buscam os 12 passos para cuidar de um filho, ou os 5 passos simples para construir uma cerca. Ninguém mais tenta fazer a própria cerca, imaginar como ela seria, colocar um pedaço de si mesmo. Essa massificação acontece e vem acontecendo, e é evidente que é disso que a história trata. De ver além da industrialização e da institucionalização.
Voltando à história, existem algumas pessoas insatisfeitas com a situação estabelecida, que formaram uma resistência. Mas pelo aspecto que o autor coloca essa resistência, eles estão tão enrolados nessas engrenagens desse sistema quanto qualquer outra pessoa. É como se esse fosse o papel deles, essa resistência é tão burocrática quanto a própria ditadura. Quem assistiu a continuação do Matrix (reload e revolutions), pode observar algo semelhante. O “Arquiteto” conta que simplesmente tem gente que não se adapta à situação imposta. Então ele deixa que se crie essa resistência, e quando ela toma força, ele extermina. Na nossa história um desses grupos é a Frente de Libertação Onírica e Patriótica, que parece mais interessada no poder, do que na idéia em si. O personagem que representa a FLOP é o Tiss.
Esse é o cenário. A história começa ainda antes da história. No meio disso tudo, um historiador, Slumber, “arquivista” de documentos medievais antigos, encontra um livro em branco. O livro chama a sua atenção e ele, escondido, leva para a casa. Não percebe nada de especial, além do fato de as páginas estarem em branco, até que adormece e acorda com o luar iluminando páginas escritas, contando os seus sonhos. O livro, assim, faz duas coisas: incentiva as pessoas a sonharem e registra, quando banhado pelo luar, o sonho.
Sonhando, Slumber percebe o quanto sua vida era medíocre e se sente profundamente frustrado. Aparece para ele então a figura do Mestre. (Não fica claro se o mestre aparece só em sonhos, ou se aparece de verdade. É evidente que para o Slumber é apenas em sonho, mas na última sequência é inquestionável a presença física do Mestre.) O Mestre é alguém que sabe de tudo, sabe da existência do catálogo de sonhos (assim se chama o livro), e sabe de seu poder. O Mestre é uma dessas figuras poderosas que não vão para “o front”, um dos tipos das epopéias, alguém de imenso poder, mas que não toma um papel ativo, apenas influencia o verdadeiro herói (Gandalf, Yoda, Merlin…). O mestre explica que existem a matéria, a antimatéria e a matéria de que são feitos os sonhos. Matéria e antimatéria, em contato, se aniquilam. Mas a matéria de que são feitos os sonhos reage de maneira bem mais sutil com a matéria, sendo mesmo assim capaz de produzir conseqüências inesperadas e grandiosas.
Slumber, com o catálogo na mão, vê um jeito de tentar sair dessa vida medíocre que ele leva. Assim, entra em contato com a FLOP para tentar vender esse catálogo. Mas o mestre continua aparecendo e torturando-o, como uma consciência.
Enquanto isso as autoridades fecham o cerco em volta da FLOP, e descobrem a existência desse catálogo. Apesar de as convicções dessas autoridades impedirem-nos de acreditar nos “poderes” do catálogo, é inegável que minimamente como símbolo, ele pode ser um fator de desestabilização dessa “ordem”. Assim eles tentam recuperar o catálogo e entrar em contato com Slumber, para, quem sabe, ele entregar os membros da FLOP. Dessa forma eles decidem invadir o apartamento do Slumber.
Mas Slumber sabe da chegada deles, e coloca em prática o que aprendeu com o catálogo, trazendo à vida um personagem de seu sonho, Claudio Remo, para despistar os guardas que entravam em seu apartamento. E é aí que começa a história.
Sobre tudo isso, é interessante notar que a única pessoa capaz de produzir uma mudança na situação é o Remo. Todos, TODOS os outros personagens, estão compenetrados de seus papéis e até conformados com eles, fazendo parte de toda essa máquina. Remo é o único elemento realmente subversivo, até por ser o único que está completamente incerto de seu papel, de seu propósito. E ao longo da história ele decide que vai provocar a mudança. E ele tem sucesso, como podemos ver pela última cena, o último diálogo entre os dois agentes sobreviventes. Um deles teve um sonho, uma das pessoas mais convictas e intrincadas desse sistema começou a sonhar. A mudança já está estabelecida.
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Esta entrada foi publicada em 18 18UTC agosto 18UTC 2009 às 21:04 e está arquivada como Uncategorized . Você pode acompanhar qualquer resposta para esta entrada através do feed RSS 2.0
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